Existência de Deus IV

Seguindo as brilhantes reflexões do Pe. Lima Vaz, nós afirmamos que a razão é sempre metafísica, e da metafísica não se pode apartar a não ser fazendo também metafísica. É a metafísica que preside à sua crítica, confirmando-se no ato que procura superá-la. Lima Vaz vê na teoria do juízo levada a cabo por Santo Tomás de Aquino o ponto de partida da metafísica e a justificativa de sua legitimidade e necessidade. Aqui, Lima Vaz inspira-se no jesuíta J. Maréchal, que, em sua obra Le point de départ de la metaphysique, elabora um argumento de caráter transcendental em favor da metafísica, fundado em Santo Tomás, atendendo, assim, as exigências do pensamento moderno, voltado para a subjetividade e para as condições de possibilidade do conhecimento.
O juízo, além de sua dimensão lógica e da síntese concretiva que opera, tem também uma dimensão metafísica. O "é" do juízo eleva a proposição à necessidade do ser e reconhece o caráter absoluto do princípio da não-contradição. Em todo juízo está afirmado o absoluto formal. Negá-lo é negar o princípio de não contradição, negação essa já refutada por Aristóteles, pelo famoso argumento de retorsão, exposto no livro IV de sua Metafísica, sob pena de que deveríamos reduzir-nos ao estado de planta. Quando digo alguma coisa é, estou reconhecendo a relação dessa afirmação com o absoluto do ser, cuja inteligibilidade última leva-me a afirmar o esse, do ato de existir, como a perfeição de todas as perfeições. A partir, então, do absoluto formal afirmado (pelo reconhecimento do caráter inquestionável do princípio de não contradição, pois questioná-lo é afirmá-lo: ele preside à sua própria crítica), e do reconhecimento da inteligibilidade do ato de existir, é possível, e mesmo inevitável, fazer metafísica. Renunciar à reflexão metafísica seria indolência e preguiça. Tomás de Aquino, partindo do absoluto formal e da inteligibilidade radical do ser como ato, chega, legitimamente, pelas tradicionais provas da existência de Deus a posteriori (quinque viae), à afirmação do Absoluto real (Deus).
Escrito por elilio às 04h46
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Existência de Deus III
A fé católica sustenta que o Absoluto real é transcendente ao mundo, é seu criador e é Logos, é Espírito Absoluto, reunindo em si a máxima perfeição do ser. É o Existente (Ipsum Esse Subsistens). Afirma ainda a fé que o homem pode, pela razão, ainda que com certa dificuldade, reconhecer a verdadeira identidade do Absoluto, rejeitando, de um lado, o panteísmo, que faz do mundo mutável o absoluto, e, de outro, o acosmismo, tese segundo a qual o mundo não tem existência real, mas está absorvido pela realidade divina ou é mera sombra sua. O acosmismo nega o Absoluto como criador e o mundo como criatura.
O Homem é, na verdade, responsável diante de Deus. Se a fé, pois, não quiser apresentar-se como mera ficção, o Homem, sobre cuja constituição íntima a fé emite um juízo, deverá poder refletir de modo plausível no sentido de um conhecimento natural de Deus, tal como a fé mesma o apresenta: um Deus pessoal, livre e criador do universo. Não podemos, assim, dispensar as reflexões sobre as conhecidas provas da existência de Deus. Escreve Hansjürgen Verweyen:
Se todo homem é responsável diante de Deus, a razão humana, por força da própria substancial predisposição, deve ter um acesso ao conhecimento de Deus. O objetivo específico das "provas da existência de Deus", é o de desenvolver de modo filosófico-reflexo este conhecimento natural de Deus.
O ensinamento oficial da Igreja, seguindo o apóstolo Paulo e a tradição sapiencial do Antigo Testamento, afirma que podemos chegar a um certo conhecimento natural de Deus.
O dinamismo da inteligência e da vontade vem em nosso socorro ao mostrar que o Homem está, desde sempre, orientado para o absoluto do ser, da verdade, da bondade e da beleza. Tal dinamismo, que não se contenta com o que é finito, postula a existência do Infinito real, sobre cuja existência procuraremos refletir.
Evidentemente, para que possamos proceder filosoficamente à demonstração da existência de Deus por obra da razão natural, seria preciso que, antes, perlustrássemos um verdadeiro tratado de criteriologia, tendo em vista constatar que a razão, ao contrário da posição de muitos agnósticos, pode alçar-se a um conhecimento certo do que ultrapassa os dados fenomênicos. Mas, o objetivo deste artigo não nos permitiria delongar-nos com o estudo sistemático de uma crítica do conhecimento. Para nosso fim, basta dizer que o agnóstico que nega à razão a possibilidade do conhecimento metafísico cai em contradição consigo mesmo, pois a sua própria negação – que é uma afirmação - é de caráter metafísico.
Escrito por elilio às 09h38
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