Blog do Padre Elílio


Existência de Deus IV

 

Seguindo as brilhantes reflexões do Pe. Lima Vaz[1], nós afirmamos que a razão é sempre metafísica, e da metafísica não se pode apartar a não ser fazendo também metafísica. É a metafísica que preside à sua crítica, confirmando-se no ato que procura superá-la[2]. Lima Vaz vê na teoria do juízo levada a cabo por Santo Tomás de Aquino o ponto de partida da metafísica e a justificativa de sua legitimidade e necessidade. Aqui, Lima Vaz inspira-se no jesuíta J. Maréchal, que, em sua obra Le point de départ de la metaphysique[3], elabora um argumento de caráter transcendental em favor da metafísica, fundado em Santo Tomás, atendendo, assim, as exigências do pensamento moderno, voltado para a subjetividade e para as condições de possibilidade do conhecimento.

O juízo, além de sua dimensão lógica e da síntese concretiva que opera, tem também uma dimensão metafísica. O "é" do juízo eleva a proposição à necessidade do ser e reconhece o caráter absoluto do princípio da não-contradição. Em todo juízo está afirmado o absoluto formal. Negá-lo é negar o princípio de não contradição, negação essa já refutada por Aristóteles, pelo famoso argumento de retorsão, exposto no livro IV de sua Metafísica, sob pena de que deveríamos reduzir-nos ao estado de planta. Quando digo alguma coisa é, estou reconhecendo a relação dessa afirmação com o absoluto do ser, cuja inteligibilidade última leva-me a afirmar o esse, do ato de existir, como a perfeição de todas as perfeições. A partir, então, do absoluto formal afirmado (pelo reconhecimento do caráter inquestionável do princípio de não contradição, pois questioná-lo é afirmá-lo: ele preside à sua própria crítica), e do reconhecimento da inteligibilidade do ato de existir, é possível, e mesmo inevitável, fazer metafísica. Renunciar à reflexão metafísica seria indolência e preguiça. Tomás de Aquino, partindo do absoluto formal[4] e da inteligibilidade radical do ser como ato, chega, legitimamente, pelas tradicionais provas da existência de Deus a posteriori (quinque viae), à afirmação do Absoluto real (Deus).

 



[1] Cf. VAZ, Henrique C. de Lima. Escritos de filosofia III. São Paulo: Loyola,1997, p. 283-342.       

[2] Cf. também: Molinaro, Aniceto. Metafísica. Curso sistemático. São Paulo: Paulus, 2002.

[3] Maréchal, J. Le point de départ de la métaphysique. 2 ed. Paris-Louvain: Desclée-Ed-Universelle, 1949.

[4]É impossível não reconhecer o absoluto, pois o ato que pretende negá-lo, afirma-o. Veja o argumento de S. Tomás: "Veritatem esse, in communi, est per se notum: Veritatem esse est per se notum, quia, qui negat veritatem esse, concedit veritatem non esse; si enim veritas non est, verum est, veritatem non esse; si autem est aliquid verum, oportet quod veritas sit. (ST, I, q. II, a. 1, ad3).



Escrito por elilio às 04h46
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Existência de Deus III

 

A fé católica sustenta que o Absoluto real é transcendente ao mundo, é seu criador e é Logos, é Espírito Absoluto, reunindo em si a máxima perfeição do ser. É o Existente (Ipsum Esse Subsistens). Afirma ainda a fé que o homem pode, pela razão, ainda que com certa dificuldade, reconhecer a verdadeira identidade do Absoluto, rejeitando, de um lado, o panteísmo, que faz do mundo mutável o absoluto, e, de outro, o acosmismo, tese segundo a qual o mundo não tem existência real, mas está absorvido pela realidade divina ou é mera sombra sua. O acosmismo nega o Absoluto  como criador e o mundo como criatura.

O Homem é, na verdade, responsável diante de Deus. Se a fé, pois, não quiser apresentar-se como mera ficção, o Homem, sobre cuja constituição íntima a fé emite um juízo, deverá poder refletir de modo plausível no sentido de um conhecimento natural de Deus, tal como a fé mesma o apresenta: um Deus pessoal, livre e criador do universo. Não podemos, assim, dispensar as reflexões sobre as conhecidas provas da existência de Deus. Escreve Hansjürgen Verweyen:

 

Se todo homem é responsável diante de Deus, a razão humana, por força da própria substancial predisposição, deve ter um acesso ao conhecimento de Deus. O objetivo específico das "provas da existência de Deus", é o de desenvolver de modo filosófico-reflexo este conhecimento natural de Deus. [1]

 

O ensinamento oficial da Igreja, seguindo o apóstolo Paulo e a tradição sapiencial do Antigo Testamento[2], afirma que podemos chegar a um certo conhecimento natural de Deus[3].

O dinamismo da inteligência e da vontade vem em nosso socorro ao mostrar que o Homem está, desde sempre, orientado para o absoluto do ser, da verdade, da bondade e da beleza. Tal dinamismo, que não se contenta com o que é finito, postula a existência do Infinito real, sobre cuja existência procuraremos refletir.

Evidentemente, para que possamos proceder filosoficamente à demonstração da existência de Deus por obra da razão natural, seria preciso que, antes, perlustrássemos um verdadeiro tratado de criteriologia, tendo em vista constatar que a razão, ao contrário da posição de muitos agnósticos, pode alçar-se a um conhecimento certo do que ultrapassa os dados fenomênicos. Mas, o objetivo deste artigo não nos permitiria delongar-nos com o estudo sistemático de uma crítica do conhecimento. Para nosso fim, basta dizer que o agnóstico que nega à razão a possibilidade do conhecimento metafísico cai em contradição consigo mesmo, pois a sua própria negação – que é uma afirmação - é de caráter metafísico.



[1] Deus. In: Latourelle, René; Fisichella, Rino (dirs.). Dicionário: teologia fundamental. Petrópolis-Aparecida: Vozes-Santuário, 1994, p. 226.

[2] Cf. Rm 1,19ss; Sb 13,1-9.

[3] Veja o ensinamento do Concílio Vaticano I: "A própria Santa Madre Igreja sustenta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza à luz da razão humana a partir das coisas criadas" (Constituição Dei Filius). O Concílio Vaticano II, retomando o ensinamento do Vaticano I, ensina também a possibilidade de um conhecimento natural de Deus, embora tenha atribuído à Revelação em Cristo o fato de os Homens, na presente condição, poderem atingir com facilidade e sem mistura de erros o que, com relação às coisas divinas, não são de per si inacessíveis à razão natural (cf. Constituição Dei Verbum, n.6).



Escrito por elilio às 09h38
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