Blog do Padre Elílio


Existência de Deus V

 

Pois bem, a Metafísica lida com os primeiros princípios do ser ou com o ser enquanto ser, e, por isso, está para além das flutuações e deficiências do conhecimento empírico-científico. O conhecimento metafísico é mais certo do que o de qualquer outra ciência, pois lida com a necessidade do ser enquanto ser. É possível e inevitável afirmar o absoluto. É claro que, com isso, não pretendemos afirmar que podemos conhecer totalmente o Absoluto real ou absorvê-lo em nossa finita inteligência. Isso não. Lembra-nos Molinaro de que, "quando se diz que a metafísica é ciência total, entende-se que ela é ciência do todo, não que é ciência de tudo"[1]. Podemos afirmar o Absoluto. Entretanto, conhecer a existência do Absoluto não significa conhecer totalmente o Absoluto nem a multiplicidade dos fenômenos, cuja pesquisa fica a cargo das ciências particulares, mas significa conhecer o "único necessário"[2], o fundamento dos fenômenos, a beleza absoluta; significa atingir um conhecimento verdadeiramente sapiencial, algo de básico, capaz de dar sentido à vida humana.

A tradição clássica, seguindo Santo Tomás, costuma elencar as famosas quinque viae[3] para demonstrar a existência do Absoluto real. Certamente, essas vias não pretendem esgotar as possibilidades da razão de tocar, ainda que de esguio, o Absoluto real. São, contudo, vias perenemente válidas, independentemente da teoria física que se adote, porque são argumentos de caráter metafísico, não científico. Para quem professa o realismo do conhecimento, a validade dos primeiros princípios da razão, esses argumentos são concludentes. Vejamos como as cinco vias se desenvolvem:

A primeira via parte do fato de que neste mundo há movimento (toda e qualquer passagem da potência ao ato). Ora, nada pode ser, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, movente e movido; nada pode ser a causa do próprio movimento, e, então, é necessário admitir que tudo o que se move é movido por outro. Assim, se uma coisa qualquer se move, é necessário que ela se mova por outra, e essa outra, se por sua vez é movida, deve-se recorrer a outra ainda. Mas, assim, não se pode ir ao infinito, pois é necessário admitir uma fonte absoluta do movimento. Se não existisse uma tal fonte, o movimento que há no mundo não seria inteligível, seria absurdo, uma vez que os moventes intermediários só movem se forem, por sua vez, movidos por um motor primeiro, fonte absoluta do movimento, assim como o bastão só move se for movido pela mão. É necessário, pois, admitir um Primeiro Movente Imóvel (não movido por nenhum outro), e a esse todos chamam Deus. Partindo da demonstração da existência de Deus concebido como Primeiro Movente Imóvel do mundo da natureza, Santo Tomás estabelece sucessivamente, por meio de remoção, que Deus não tem começo ou fim: é eterno; que não há em Deus potência passiva, nem matéria, nada de violento, nada de corpóreo, que em Deus não há composição. Conclui ainda que Deus é sua própria essência e que em Deus, e somente em Deus, há total identidade entre essência e existência. Aqui descobrimos Deus como Aquele que é. Essa descoberta é decisiva, pois implica uma concepção altamente intensiva do ser: o ser como perfeição máxima. O ser, como ato de existir, é a perfeição de todas as perfeições. Sem o ato de existir não há nenhuma essência, nenhuma perfeição. Deus, Movente Imóvel, é "puro ser", a pura atualidade da existência. Se assim não o fosse, ele haveria de receber a existência de um outro, o que é impossível, pois assim ele deixaria de ser a fonte absoluta e imóvel do movimento, isto é, deixaria de ser Deus. Deus, assim atingido, não se reduz a um ente entre os outros, mas é ele a existência mesma; só nele a essência e ser são o mesmo. Nos entes mutáveis, a essência não coincide com a existência, devendo-se, pois, admitir um agente em ato, que possua (seja) o ser por si mesmo, que tire do nada o ser dos entes; tal agente é Deus, a quem, a título exclusivo, compete a existência.



[1] MOLINARO,Aniceto. Metafísica. Curso sistemático. São Paulo: Paulus, 2002, p. 9.

[2] Cf. Lc 10,42.

[3] Cf. ST, I, q. II e III.

 

 



Escrito por elilio às 18h22
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