Blog do Padre Elílio


Liturgia

Bento XVI e a missa romana tradicional

Padre João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

  

Reações muito diversas provocou a resposta do papa Bento XVI a um jornalista em sua recente viagem a França. Disse o papa que o motu próprio Summorum Pontificum, que liberta a missa romana de sempre do poder discricionário a que se encontrava injustamente sujeita, representa um gesto de tolerância para com um pequeno grupo de católicos apegados à forma litúrgica antiga.

Em primeiro lugar, é preciso observar que, evidentemente, tal frase pronunciada pelo papa teve por fim "tranqüilizar" um episcopado recalcitrante em acatar o magistério pontifício em assuntos doutrinários de suma gravidade e não apenas no concernente a rubricas litúrgicas de somenos importância. Contra fatos não há argumentos. Poderíamos multiplicar as citações de incontáveis declarações de autoridades religiosas contestando o magistério da Igreja no que diz respeito, por exemplo, à ordenação de mulheres, à ética sexual, à moral familiar.

Prefiro, entretanto, ater-me ao campo da liturgia. Aqui temos exemplos gritantes da rebeldia diante da autoridade da Santa Sé. Vence em novembro próximo o prazo dado por Roma para que as conferências episcopais expliquem aos fiéis católicos a necessidade de corrigir a tradução da fórmula da consagração (pro vobis et pro multis – por vós e por muitos – e não se diz hoje: por vós e por todos). Durante todo esse tempo não se verificou um pronunciamento sequer em acatamento do decreto da Congregação para o Culto Divino. Pelo contrário, consta que se fez saber à Santa Sé que não se quer obedecer e corrigir a tradução falsa e heretizante.

Diante de um clima de insubordinação à autoridade do Sumo Pontífice, a quem se quer reduzir a uma espécie de rainha Elisabeth II, o papa, como Bom Pastor, tenta salvar o salvável, quer dizer, evitar o mal maior, "segurar as pontas" e quase não pode agir positivamente no sentido de fazer cumprir suas ordens.

Sabe-se que a reação do episcopado francês contra o motu próprio foi furibunda. Recentemente um cardeal francês disse: "Queremos saber aonde Bento XVI quer chegar." Está patente a falta de docilidade. É o mínimo que se pode dizer. Esse episcopado e outros do mesmo jaez, que mal toleram a missa tridentina em suas dioceses, é claro, aplaudiram a resposta do papa, porque com ela tentam enganar os católicos incautos negando o valor jurídico do rito romano tradicional.

Se os modernistas fingem não saber qual é a diretriz romana, um católico sincero e atento sabe muito bem, baseado em inúmeros fatos e provas, que Roma quer simplesmente restaurar a liturgia católica, devastada pela reforma litúrgica e causadora da crise da Igreja após o Vaticano II. E quem o diz não sou, mas o próprio cardeal Ratzinger.

Na verdade, Bento XVI tem de contemporizar, porque assim lhe aconselhar agir superior prudência. Mas diz o brocardo latino intelligenti pauca. Ao inteligente ou a quem quer entender bastam poucas palavras. No caso do papa, diria até que já não são poucas as palavras e gestos sinalizando sua intenção de restaurar a liturgia católica devastada. Bento XVI contemporiza, mas ao mesmo tempo sinaliza a seta.

Publicando o motu próprio, restabelecendo nas missas pontifícias a comunhão de joelhos e na boca (aliás, trata-se da forma ordinária do rito da comunhão), enaltecendo o canto gregoriano, está evidente que o papa pretende resgatar valores preciosos não só da liturgia católica mas de toda a cultura ocidental. Como homem inteligente e bom observador das coisas, o papa sabe perfeitamente que na marcha da história há perdas e conquistas. Sabe que no século XX, após tantas transformações culturais, a Igreja tinha de reformar-se mantendo-se fiel a si mesma e a Cristo. Sabe que nos últimos anos a Igreja sofreu grandes perdas.

 Com o abandono de valores clássicos da civilização, com a secularização da sociedade, a assimilação do dado da fé torna-se muito mais difícil pela falta de condições prévias que propiciem uma cultura aberta ao sagrado. A língua latina, a verdadeira música sacra, a autêntica arte na construção dos monumentos religiosos, a  educação cristã transmitida em verdadeiras escolas católicas, enfim a regeneração de todos os costumes e instituições cristãs com o sinete da santa tradição, tudo isso o papa sabe que é preciso recuperar e luta para isso com coragem e sabedoria.

Mais ainda. O papa sabe – podemos dize-lo com vários discursos seus – que, se não houver um reatamento do vínculo da tradição, se não houver  continuidade, é impossível haver cristianismo no futuro, não obstante as promessas de Nosso Senhor. Em uma palavra, o papa sabe que a situação atual da Igreja é grave. Pois um cristianismo sem identidade própria, em constante abertura e diálogo com o mundo, apenas com a preocupação filantrópica de melhorar as condições de vida do homem na terra, só pode reduzir-se a humanismo barato, desprezível aos olhos dos próprios humanistas ateus e objeto de escárnio da sinagoga de Satã.

De maneira que é necessário que a liturgia católica, rosto da Igreja, não se descaracterize nem perca suas raízes, sob o pretexto de ser mais compreensível ao homem moderno. Ao contrário, deve ser uma resposta e uma vacina contra a mentalidade racionalista e protestante que invadiu os ambientes católicos nos últimos anos, levando muitos a perder o sentido do mistério, a ver a missa como festa comunitária ou simples palestra animada.

A liturgia pode ter um desenvolvimento sempre no sentido da tradição. Não se trata de defender uma estagnação ou engessamento dos ritos, mas esse crescimento deve ser orgânico. Sempre defendi que o chamado missal de São Pio V, que tanto veneremos, poderia ter seu lecionário enriquecido, sem incorrer no biblismo da reforma litúrgica. No próprio dos confessores, das virgens e viúvas, poderia haver maior diversidade de leituras extraídas das missas pro aliquibus locis. Igualmente, o tempo do Advento poderia ter algumas missas para as férias. Diga-se o mesmo quanto aos prefácios. Não nego o valor pedagógico da repetição dos textos da Sagrada Escritura, ignorado pela reforma de 1969 e tão bem ressaltado por Romano Amerio em sua crítica. De qualquer modo, um enriquecimento é possível para evitar o perigo de parecer enfadonho a alguns.

Voltando a Bento XVI, acode-me um pensamento do Padre Antonio Vieira. Diz ele com muita verve que Cristo queria abolir a circuncisão e, no entanto, submeteu-se a ela, embora não estivesse obrigado. Mas como um pedagogo agiu assim para ser mais eficaz em seu propósito: "Pouco a pouco se fazem as coisas grandes, e não há melhor arbítrio para as concluir com brevidade, que não as querer acabar de repente." (Cf. Sermão dos Bons Anos).

Será que Bento XVI leu Antonio Vieira?!

Portanto, aos tradicionalistas exaltados que desconfiam das intenções do papa quanto à tradição litúrgica e ficaram descontentes com a sua frase, recomendo maior ponderação. E aos progressistas que sabotam a obra do Santo Padre, fingindo desconhecer seu propósito, simplesmente os desengano.

 

fonte: http://www.santamar iadasvitorias. com.br

 



Escrito por elilio às 17h30
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Teoria tomista da Beleza III

 

Pe. Elílio

 

             O belo, assim, é o ser de cuja apreensão, seja pelo conhecimento sensível (sentidos intelectuais, como a vista e a audição), seja pelo conhecimento puramente intelectual, decorre sempre e necessariamente o gozo. Quanto mais puro e sublime o conhecimento, mais intenso o gozo que dele resulta. Mas, é preciso fazer uma observação. Alguém poderia ser levado a confundir a apreensão perfeita com o caráter último do conhecimento enquanto tal. Toda vez que conhecemos um ser que ofereça à nossa inteligência um objeto cuja apreensão não deixa nada a desejar, temos, então, uma apreensão perfeita. Isso quer dizer que certas verdades se nos apresentam sob uma forma tão pura que traz ao conhecimento a rara alegria de uma apreensão pura e perfeita da verdade. Tal é o caso, por exemplo, da beleza sensível[1] e das conclusões a que chegamos a partir de dados seguros, lógica indiscutível e plena apreensão. Mas o caráter último do conhecimento não diz respeito a outra coisa senão à verdade absoluta, termo para o qual tende espontaneamente a atividade de nossa inteligência. Entretanto, a verdade absoluta, meta última do nosso conhecimento, não nos é evidente, como veremos adiante, embora possa ser evidentíssima em si mesma[2] e disso possamos ter consciência. O fato, contudo, de apreendermos só imperfeitamente a verdade absoluta não quer dizer que não possamos amá-la perfeitamente ou alegrarmo-nos com ela. Por estar acima de nossa capacidade de compreensão não deixa de ser boa e bela para nós. Ao contrário, a contemplação da verdade absoluta é causa do gáudio mais intenso que o Homem pode esperar nesta vida . Isso assim se explica: o amor e o gozo não se medem pelo conhecimento perfeito que possamos ter de um objeto, embora o conhecimento seja condição necessária para o amor ou o gozo. Se não podemos apreender perfeitamente a verdade absoluta devido à deficiência de nosso intelecto, podemos contudo conhecê-la por aquilo que ela não é e amá-la. Tal conhecimento, ainda que seja negativo, não deixa de ser um conhecimento que aponta para a sublimidade do objeto contemplado e desperta na potência apetitiva o amor. É do conhecimento da sublimidade da verdade última, ainda que não possamos abarcá-la completamente pela nossa limitada inteligência, que experimentamos o amor sublime, que é capaz de guiar-nos no escuro rumo à união com a excelência do objeto, resultando disso tudo o gozo sublime. Por isso, os místicos ousam afirmar que, embora não possamos conhecer o Absoluto nesta vida senão imperfeitamente e por analogia, podemos, entretanto, amá-lo perfeitamente. 

             A doutrina tomista, de base gnosiológica realista como é, assinala três condições do belo, que outra coisa não são senão as condições mesmas do ser; tais são elas: a) a integridade: não deve faltar nada do que convém ao ser; o ser deve possuir tudo o que lhe é devido; b) a proporção ou unidade: o ser é necessariamente proporcional a si mesmo; todo ser é não-contraditório, é uno; c) a claridade ou o resplendor da inteligibilidade: o ser é na medida em que é inteligível; quanto mais inteligível, mais claridade e resplendor. O belo possui, pois, uma fundamentação ontológica e, desse modo, não está entregue à manipulação subjetiva. A nossa inteligência mesma está como que invadida pelo sentido da integridade, proporção e claridade do ser. Poderíamos chamar esse fenômeno de senso gestáltico, que nos é conatural. Tendemos sempre à ordem, à afirmação do cosmo sobre o caos.

             Da reflexão exposta depreende-se que todas as coisas são belas na mesma medida em que são (existem). Não há o feio absoluto ou a fealdade em si, do mesmo modo que não há o nada absoluto. O que chamamos de fealdade outra coisa não é senão o belo carente de alguma beleza que lhe é devida. Para que se possa falar de feio, é preciso que, antes, haja o ser, que é necessariamente belo, como suporte para cuja perfeição falta algo. Com muita sabedoria, afirma Santo Agostinho: "Porque todo ser, em qualquer grau em que se encontre, é algo de bom, visto que o sumo Bem é o sumo Ser"[3]; e ainda: "a beleza (que) reina em tudo o que existe, desde o mais alto até o mais baixo"[4]. O ser é sempre bom e belo. O ser, em seu mais ínfimo grau, é superior ao nada[5].

Há, evidentemente, uma hierarquia de graus de beleza. Quanto mais algo tem de ser, mais de beleza terá. Isso equivale a dizer que quanto mais íntegro, uno e claro for o ser, eo ipso mais belo será. Se pudermos, então, afirmar a existência de um ser absoluto (Ipsum Esse Subsistens), ainda que não possamos abarcá-lo totalmente com nossa limitada inteligência, afirmaremos, conseqüentemente, a existência da beleza absoluta.  

 



[1] Todo o nosso conhecimento tem origem nos sentidos, de modo que o sensível é o objeto próprio de nosso conhecimento.

[2] A Verdade absoluta, evidentíssima em si mesma, é o Absoluto, no qual se identificam inteligente em ato e inteligível em ato, atingido, de modo imperfeito e analógico, pela razão filosófica.

[3] Santo Agostinho. A verdadeira religião. In ______. A verdadeira religião. O cuidado devido aos mortos.  São Paulo, Paulus, 2002, p. 58.

[4] Ibidem, p. 111.

[5] "Ora, toda obra da natureza, seja ela a última, a ínfima, é digna de elogio em comparação ao nada" (Ibidem, p.105).



Escrito por elilio às 15h15
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Estética filosófica

Teoria tomista da Beleza II

 

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

 

O segundo elemento constitutivo de nossa definição, devemos analisá-lo agora: o placet diz respeito ao deleite, agrado ou alegria de que a beleza é fonte. Destarte, o belo, considerado como aquilo que agrada é, de certa forma, um bem para o conhecimento. E o bem é aquilo para o qual o apetite tende. Já ficou assentado que o belo refere-se à inteligência; contudo, ele não se confunde com a verdade. A verdade é o objeto próprio da inteligência, já que é a conformidade da inteligência com a realidade (adaequatio intellectus ad rem). Se o verdadeiro e o belo relacionam-se com a inteligência, qual é, então, a razão de serem conceitos distintos? Na realidade, o verdadeiro e o belo se identificam, distinguindo-se apenas por uma distinção de razão. O verdadeiro resulta da adequação da inteligência com a coisa, enquanto o belo resulta do deleite proporcionado por essa adequação. Com outras palavras, à noção de verdadeiro corresponde a conformidade do intelecto com a coisa, e à noção de belo corresponde o repouso agradável decorrente do conhecimento da coisa[1]. Vê-se, portanto, que o conhecimento é condição indispensável do deleite que é constitutivo do belo. A agradabilidade, deleitação ou alegria, constitutivos do belo, podem ser descritas como um certo prazer experienciado[2] pelo contemplante, como índice de felicidade ou repouso satisfatório; no caso do Homem, em virtude de sua unidade substancial de matéria e espírito, este gozo nunca é puramente intelectual, ainda que a beleza contemplada seja supra-sensível, mas é um prazer que, referente em última instância ao intelecto, envolve o Homem todo em suas dimensões corporal, psicológica e espiritual. Há como que um transbordamento do deleite, atingindo o homem em todas as suas dimensões.

             Diante do que analisamos, não nos poderíamos furtar de fazer menção ao bem, que, assim como a verdade, é um transcendental do ser. Dissemos que o belo é um certo bem do conhecimento. O bom é aquilo para o qual tende o apetite. Mas, onde está a diferença do bom e do belo, já que este, como afirmamos, é um certo bem para o conhecimento? Devemos dizer que enquanto pertence à noção de bom a relação com o apetite ou vontade, à noção de belo pertence, como já se viu, a relação com a potência cognitiva[3]. No bom a apreensão do apetite encontra o repouso; no belo o repouso da apreensão se dá por referência à potência cognitiva.

             Temos, assim, três conceitos distintos, mas que, na realidade, são inseparáveis: o verdadeiro, o bom e o belo são transcendentais do ser, e entre eles não há senão distinção de razão. O verdadeiro indica a correspondência da inteligência com o ser; o bom é o ser para o qual tende o apetite[4] e no qual ele encontra repouso; o belo, por sua vez, é como que a coroação do verdadeiro e do bom, é a fonte de alegria decorrente do conhecimento da correspondência da inteligência com o seu objeto (o verdadeiro) e do repouso da vontade no seu objeto (o bom). A razão formal do belo diz respeito à alegria ou ao gozo; pertence ao belo que o conhecimento encontre repouso deleitável no ato do conhecimento, que aquele que repousa no objeto querido se veja arrebatado pelo gozo e pleno de amor.

             Entre a verdade e o bem há uma correspondência que pode ser assim delineada: na verdade a inteligência encontra o seu bem enquanto que no bem a vontade encontra a sua verdade. Vê-se, pois, como o primado de prioridade lógica cabe à inteligência, uma vez que até mesmo o bem, objeto da vontade, seria absurdo se não fosse, antes, a verdade da vontade[5]. Mesmo nos seres naturais, destituídos de inteligência, e que, por isso, tendem inconscientemente para o seu bem, há a prioridade da inteligência, uma vez que essa tendência ao bem (apetite) não se dá senão em referência a uma Inteligência Superior por quem são governados. O primado de prioridade da inteligência poderia ser resumido pelo famoso postulado filosófico: o que não é conhecido não pode ser amado. O que antes não é conhecido pela inteligência não pode ser desejado pelo apetite. A verdade é o bem da inteligência, e o bem é a verdade da vontade, enquanto o belo é a coroação deleitosa de ambos, da verdade e do bem. Desse modo, os três conceitos estão intimamente relacionados; são inseparáveis do ser. Ou melhor: são aspectos do ser, aspectos estes, porém, que a palavra ser por si não diz. O ser é verdadeiro para a inteligência, bom para o apetite e, por fim, belo, porque proporciona ao que conhece o gozo do conhecimento e ao que quer, a alegria da posse.

 



[1] Veja o que diz Santo Tomás: “ad rationem pulchri pertinet quod in eius aspectu seu cognitione quietetur apprehensio” (ST, I-II, q. XXVII, a. 1, ad 3).

[2] Pelo adjetivo experienciado entendemos o que se dá no âmbito de uma verdadeira experiência pessoal, ao passo que o experimentado seria do domínio da experiência empírica, próprio das ciências empiriológicas.

[3] “Dicendum quod pulchrum est idem bono sola ratione differens. Cum enim bonum sit quod omnia appetunt, de ratione boni est quod in eo quietetur appetitus. Sed de ratione pulchri pertinet quod in eius aspectu seu cognitione quietetur apprehensio" (ST, I-II, q. XXVII, a. 1).

[4] Todos os entes têm apetite, uma vez que todos desejam ser, isto é, tem uma propensão ou disposição natural  a ser o que são (conatus essendi).

[5] A propósito escreve Paul Gilbert: "De um ponto de vista psicológico, não se pode dizer que uma de nossas faculdades tenha uma prioridade absoluta sobre a outra: a inteligência precede a vontade e vice-versa. Do ponto de vista da intenção da vontade, é verdade que se pode querer sem saber o termo para o qual se há de tender. A inteligência precede, pois, a vontade determinando seu termo. Querer qualquer coisa não é querer. Para paralisar a vontade nada é tão eficaz como lhe apresentar escolhas totalmente indeterminadas. A inteligência determinante tem, pois, uma prioridade do ponto de vista da intenção final querida. Além do que, pondo esse fim em sua unidade própria, ela objetiva o termo ao qual a vontade quer unir-se em sua alteridade. A inteligência dirige, assim, a intenção da vontade" (Gilbert, Paul. A simplicidade do princípio. Prolegômenos à metafísica. São Paulo: Loyola, 2004, p. 36).



Escrito por elilio às 15h14
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


Estética filosófica

Teoria tomista da Beleza

 

Pe. Elílio de Faria Matos Júnior

 

            

             O que pretendemos aqui é estabelecer, em última instância, o que define o belo. Trata-se, pois, de uma elucubração filosófica a respeito do conceito de belo. Assim, nosso objetivo é atingir uma noção que diga respeito ao belo enquanto tal ou que o caracterize a título exclusivo. É um empreendimento que procura atingir a essência do belo, isto é, aquilo pelo qual o belo é belo e não outra coisa. Não se trata, pois, de dizer tudo sobre o belo, mas de identificar o que, segundo nossa posição, o define enquanto tal.

             A nosso ver, o que define o belo enquanto tal foi muito bem trabalhado pela tradição clássica. Grande porta-voz dessa tradição é, sem sombra de dúvida, Santo Tomás de Aquino (1225-1274). Tomaremos, pois, de empréstimo, sua definição do belo. Tomaremo-la não porque nos apoiamos em sua autoridade, sem mais, como que invocando a célebre sentença: magister dixit; mas, antes, faremos dela uso por ser firme a nossa convicção de que ela, verdadeiramente, coloca em luz meridiana a essência do belo. A definição de Santo Tomás é breve e simples: pulchrum est id quod visum placet[1] (o belo é aquilo que agrada à visão).

             Tal definição, simples como é, exige desdobramento. Podemos dizer que ela implica dois elementos constitutivos que devem ser analisados de per si. São eles: a visão ou conhecimento (visum), de um lado, e, de outro lado, o deleite, gozo ou alegria (placet).

             O visum caracteriza o belo como algo que é visto ou conhecido, de tal modo que sem visão não se pode falar de beleza. Podemos perguntar-nos: como se dá tal visão? A visão simplesmente sensível, animal, seria suficiente no caso? Se assim fosse, os brutos também possuiriam a consciência do belo. Mas tal não se dá[2]. Resulta, pois, que a afirmação do belo implica, imprescindivelmente, referência à inteligência[3]. O Homem, sim, por ser animal racional, possui o senso do belo. A afirmação do belo supõe, ainda que implicitamente, um juízo da consciência. Ora, o juízo só aos seres inteligentes compete. É certo, entretanto, que a beleza é acessível aos sentidos: o ouvido encanta-se por uma bela música e os olhos deleitam-se com uma bela forma. Mas a acessibilidade do belo aos sentidos só é possível porque eles estão penetrados de razão. Santo Tomás diz que os sentidos que percebem o belo são os que mais ligados estão com a potência cognitiva, como é o caso da vista e da audição; ao contrário, com relação aos demais sentidos, não usamos o conceito de belo para caracterizar seus sensíveis, pois não dizemos que os sabores e os odores são belos[4]. Em virtude da unicidade substancial, no Homem, de espírito e matéria, os sentidos são perpassados pelo espírito, e o gozo que o Homem experimenta pelos sentidos não se pode compreender sem referência à inteligência. O senso do belo supõe sempre a consciência, que, por sua vez, é uma categoria do espírito. É pelo espírito, realidade misteriosa, sem a qual, contudo, não compreendemos o Homem como convém, que o homo sapiens sapiens distingue-se dos irracionais, os quais podem até saber, mas certamente não sabem que sabem, isto é, não têm consciência.

             A visão, portanto, que constitui elemento essencial para a afirmação do belo é, em última instância, conhecimento, e por isso, referente à potência intelectual. Há, sem dúvida, o conhecimento que o homem assume pelos sentidos (a beleza sensível) e o conhecimento puramente intelectual (que se dá quando o espírito deleita-se com a contemplação da verdade de um ser, e, então, tanto maior será a deleitação quanto mais inteligível for a verdade, isto é, quanto mais clara for). Devido a nossa constituição de espírito encarnado, o nosso conhecimento sempre começa pelos objetos sensíveis, conhecimento este que desperta em nós os primeiros princípios da inteligência, a partir dos quais podemos, pela operação que Santo Tomás denominou separatio[5], alcançar o puro inteligível. Concluamos, pois, que a intuição (o ato de ver, sempre relacionado de um modo ou de outro à inteligência) é condição indispensável para que se fale de beleza.



[1] “Santo Tomás define o belo como sendo o que agrada ver (id quod visum placet) ou o que agrada pelo conhecimento” (Jolivet, Régis. Tratado de filosofia III. Metafísica. Rio de Janeiro: Agir, 1965, p.259).

[2] Verdade é que alguns animais parecem sensíveis à beleza; tal é o caso da serpente encantada pela flauta ou o caso de cavalos excitados pelo clarim. Essas reações não implicam inteligência, mas explicam-se ou pelo instinto ou pelo reflexo condicionado. Isso, contudo, não desvincula o belo de sua relação com a inteligência, mas  mostra que a constituição natural do animal foi "pensada" por uma Inteligência.

[3] “A beleza é objeto de inteligência ou de conhecimento intuitivo, enquanto resulta de condições que não são acessíveis senão à inteligência. Essas condições são: a integridade do objeto, a proporção ou unidade na variedade, enfim, a clareza ou resplendor da inteligibilidade” (Jolivet, Régis. Curso de filosofia. 20.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1998, p.338).

[4] “Unde et illi sensus praecipue respiciunt pulchrum, qui maxime cognoscitivi sunt, scilicet visus et auditus rationi deservientes; dicimus enim pulchra visibilia et pulchros sonos. In sensibilibus autem aliorum sensuum non utimur nomine pulchritudinis; non enim dicimus pulchros sapores aut odores” (ST, I-II, q. XXVII, a.1).

[5] O termo separatio designa o gesto metafísico da inteligência pela qual é afirmado o que é negativamente imaterial (as noções de ser, de substância, de causa... que, em si, não implicam materialidade, mas podem realizar-se na matéria.) e o que é positivamente imaterial (Ipsum Esse Subsistens, isto é, Deus, cujo ser exclui toda materialidade).



Escrito por elilio às 22h52
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico


Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 Santa Sé
 Catecismo da Igreja Católica
 Santo Tomás de Aquino - Opera omnia
 Liturgia em foco
 Arquidiocese de Juiz de Fora
 ARVO NET - Cultura católica (em espanhol)
 Pagine cattoliche - Teologia e Filosofia (em italiano)
 Catena Aurea de S. Tomás (em espanhol)
 Santo Agostinho - Opera omnia
 Evangelho do dia com comentários
 Aquinate - Revista eletrônica de estudos tomistas
 J. Ratzinger's Fan Club
 Site do Padre Paulo Ricardo
 A Caminho da Teologia (blog)
 WWW.CHIESA - aos cuidados de Sandro Magister (em vários idiomas)